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“Eis-me aqui, envia-me a mim”: A visão de Isaías e o significado do sacramento

Quando entramos em uma capela no domingo de manhã, com a música reverente, as roupas adequadas e os cumprimentos alegres, porém discretos, percebemos que estamos em um lugar sagrado. Mas uma cena do livro de Isaías pode nos ajudar a enxergar esse momento de maneira ainda mais profunda: como uma ocasião em que nos apresentamos diante de Deus, reconhecemos nossa necessidade de purificação e renovamos nosso convênio de servi-Lo.

O livro de Isaías é um dos livros mais belos e, ao mesmo tempo, mais desafiadores da Bíblia. Ainda assim, o próprio Salvador ordenou: “Examinai estas coisas diligentemente, porque grandes são as palavras de Isaías” (3 Néfi 23:1).

Felizmente, os santos dos últimos dias têm uma vantagem especial ao estudar Isaías. O Livro de Mórmon não apenas apresenta grandes trechos de seus escritos, mas também nos mostra como lê-los de uma maneira que os torna relevantes e pessoais.

O Presidente Ezra Taft Benson ensinou que o Livro de Mórmon “foi escrito para os nossos dias” e incentivou os leitores a se perguntarem por que seus profetas incluíram determinados ensinamentos e que lições eles poderiam oferecer para nós hoje. Ele aconselhou:

“Devemos indagar-nos constantemente: ‘Por que o Senhor inspirou Mórmon (ou Morôni, ou Alma) a incluir isto em seu registro? Que lição posso aprender com isto que me ajudará a viver nesta época?’”

Essas perguntas são especialmente relevantes quando estudamos Isaías. Embora seus escritos tenham sido originalmente dirigidos aos antigos israelitas, grandes partes do livro foram citadas no Livro de Mórmon, deixando claro que essas palavras também foram preservadas para nós.

Por isso, ao estudar Isaías, podemos seguir o exemplo de Néfi, que leu suas palavras aos irmãos “para melhor persuadi-los a acreditar no Senhor, seu Redentor”. Ao fazer isso, Néfi explicou: “apliquei todas as escrituras a nós, para nosso proveito e instrução” (1 Néfi 19:23).

Uma passagem, em especial, nos convida a fazer essa aplicação: a visão em que Isaías recebe seu chamado profético.

Isaías diante do Senhor

É uma visão dramática. Há fumaça, seres celestiais de seis asas, uma brasa viva que toca os lábios de Isaías e o próprio Deus sentado em um alto trono, com as orlas de Seu manto enchendo todo o templo. Embora essas imagens possam parecer distantes da nossa realidade, seu simbolismo fala diretamente aos discípulos dos últimos dias que buscam purificação e renovação de seus convênios.

Sabemos que essa passagem deve ser importante para nossa época porque aparece tanto em Isaías 6 quanto em 2 Néfi 16. Talvez o fato de esse capítulo de Isaías ter sido incluído no Livro de Mórmon seja uma evidência de que essa visão não é apenas o relato do chamado de um profeta.

Ela pode ter sido preservada especificamente para ajudar os membros da Igreja em nossos dias a compreender melhor como cada um de nós pode se achegar a Deus e tornar-se uma testemunha de Jesus Cristo.

Lemos em Isaías 6:1–5:

“No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono; e as orlas do seu manto enchiam o templo.

Serafins estavam acima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobriam o seu rosto, e com duas cobriam os seus pés, e com duas voavam.

E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória.

E os umbrais das portas se moveram com a voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça.

Então disse eu: Ai de mim! pois estou perdido, porquanto sou homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios; porque os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos.”

Ao contemplar o Senhor em Seu trono no templo, cercado por seres celestiais, Isaías foi tomado pela consciência de sua própria impureza. Sua reação pode nos lembrar da imagem apresentada posteriormente por Alma, quando fala da humanidade diante de Deus tendo “uma viva lembrança de toda a nossa culpa” (Alma 11:43).

Em outro momento, Isaías fala de pessoas que se esconderiam “nas cavernas das rochas” e “pelas concavidades da terra” por causa “da presença temível do Senhor” e “da glória da sua majestade” (Isaías 2:10, 19, 21; comparar com 2 Néfi 12:10, 19, 21).

A descrição que Alma faz daqueles que não se arrependeram talvez também ecoe essa imagem de Isaías, de alguém que se vê completamente exposto diante da majestade de Deus:

“Porque nossas palavras nos condenarão, sim, todas as nossas obras nos condenarão; não seremos considerados sem mancha e nossos pensamentos também nos condenarão; e nesse terrível estado não nos atreveremos a olhar para o nosso Deus; e dar-nos-íamos por felizes se pudéssemos ordenar às pedras e montanhas que caíssem sobre nós, para esconder-nos de sua presença.” (Alma 12:14)

A brasa que purificou Isaías

Ali estava Isaías, no templo, diante do altar onde eram realizados sacrifícios de sangue para fazer expiação pelos pecados do povo (Levítico 17:11). A confissão de Isaías expressa o coração quebrantado e o espírito contrito de alguém que reconhece sua impureza diante de Deus.

Mais tarde, Cristo declararia:

“E vós não me oferecereis mais derramamento de sangue; sim, vossos sacrifícios e holocaustos cessarão, porque não aceitarei qualquer dos vossos sacrifícios e holocaustos.

E oferecer-me-eis como sacrifício um coração quebrantado e um espírito contrito. E todo aquele que a mim vier com um coração quebrantado e um espírito contrito, eu batizarei com fogo e com o Espírito Santo.”(3 Néfi 9:19–20)

Então, enquanto Isaías estava diante do altar do holocausto, as escrituras dizem:

“Porém um dos serafins voou para mim, trazendo na sua mão uma brasa viva, que tomara do altar com uma tenaz;

E com ela tocou a minha boca, e disse: Eis que isto tocou os teus lábios; assim, já se tirou de ti a tua culpa, e já está expiado o teu pecado.” (Isaías 6:6–7)

A palavra hebraica seraph (plural seraphim) também é usada para as “serpentes ardentes” enviadas entre Israel no deserto (Números 21:6; ver também Deuteronômio 8:15). Para salvar o povo, o Senhor ordenou a Moisés que fizesse um saraph, geralmente traduzido como “serpente ardente”, e o colocasse sobre uma haste (Números 21:8). 2

Em Isaías 14:29 e Isaías 30:6, o termo aparece na expressão “serpente ardente voadora”. Os estudiosos muitas vezes entendem esses seres celestiais alados como figuras ardentes, semelhantes a serpentes, associadas à purificação e à cura, embora Isaías 6 não os descreva explicitamente como serpentes.

A expressão de Néfi “serpentes ardentes voadoras”, em 1 Néfi 17:41, combina o relato das serpentes ardentes de Números 21 com a linguagem encontrada em Isaías 14:29 e Isaías 30:6. Esse vocabulário em comum também nos convida a perceber uma associação bíblica mais ampla entre serafins, serpentes ardentes, voo, purificação e cura.

A visão de Isaías acontece no templo. No primeiro versículo do capítulo 6, ele vê o Senhor sentado em um trono, com as orlas de Seu manto enchendo o templo (Isaías 6:1). Se quisermos traçar um paralelo entre a história de Isaías e a nossa, poderíamos começar também em um templo moderno, a Casa do Senhor.

Mas a visão de Isaías também pode lançar luz sobre nossa adoração semanal, se enxergarmos um paralelo simbólico entre o antigo templo e a capela moderna. A capela também é um lugar sagrado.

De fato, houve ocasiões em que capelas locais, por um período limitado, funcionaram como extensões do templo enquanto os membros participavam remotamente dos serviços dedicatórios realizados em outro templo.

Mas uma capela não é sagrada apenas quando funciona como uma extensão do templo. Costuma-se dizer que uma das reuniões mais espirituais da Igreja é um funeral. Um sentimento especial de reverência toma conta da congregação quando todos se levantam enquanto o caixão é levado para a frente da capela.

Pense em como nossas reuniões sacramentais poderiam ser diferentes se entrássemos na capela e nos comportássemos ali como se estivéssemos entrando no templo.

Pense em como nossa reflexão durante o sacramento poderia se tornar mais significativa se, com a mesma solenidade de um funeral, nos lembrássemos da morte e do sacrifício do Salvador enquanto Seu corpo e Seu sangue são simbolicamente colocados diante de nós, na frente da capela.

Ao recordarmos Sua vida e Seu sacrifício, poderíamos imaginar a tristeza que sentimos ao nos despedirmos Dele antes de vir à Terra e a alegria que sentiremos quando um dia estivermos novamente reunidos com Ele.

Nossas capelas não são templos, mas são lugares consagrados de adoração. Semana após semana, a reunião sacramental nos convida a nos aproximarmos do Salvador com reverência. À mesa do sacramento, lembramos não apenas que Cristo morreu por nós, mas também que Ele vive, que Sua Expiação pode nos purificar e que, por meio Dele, podemos voltar à presença de Deus.

Os paralelos são marcantes:

  • Em vez das brasas quentes de um sacrifício queimado, pão e água são colocados sobre a mesa para simbolizar o grande e último sacrifício do Cordeiro de Deus.
  • Em vez de anjos, diáconos ficam preparados para erguer os emblemas e levá-los à congregação.
  • Em vez de tenazes carregando fogo, bandejas carregam os símbolos do Cordeiro de Deus.
  • Em vez dos lábios de Isaías serem tocados por uma brasa, nossos lábios recebem os emblemas do corpo e do sangue de Cristo.

Ao participarmos do sacramento com arrependimento e fé, nossos pecados podem ser purificados, não pelo fogo das brasas da visão de Isaías, mas pelo batismo de fogo prometido àqueles que guardam seus convênios sacramentais.

Isaías vê o nascimento de Cristo

“Eis-me aqui, envia-me a mim”

A experiência de Isaías não terminou com sua purificação. Depois de ser purificado, ele ouviu o Senhor perguntar:

“A quem enviarei, e quem há de ir por nós?”

E respondeu:

“Eis-me aqui, envia-me a mim” (Isaías 6:8).

Os leitores da antiguidade reconheceriam essa resposta nas histórias de Abraão, Jacó, Moisés e Samuel, que responderam ao chamado de Deus com palavras equivalentes a “Eis-me aqui” (Gênesis 22:1, 11; Gênesis 31:11; Gênesis 46:2; Êxodo 3:4; 1 Samuel 3:4–10).

Para os santos dos últimos dias, essas palavras também ecoam o conselho pré-mortal, quando o próprio Cristo respondeu:

“Eis-me aqui, envia-me.” (Abraão 3:27)

A cada semana, quando o pão e a água tocam nossos lábios, podemos nos lembrar da visão de Isaías. Apresentamo-nos diante do Senhor com o coração quebrantado e o espírito contrito, conscientes de nossa necessidade da purificação que se tornou possível por meio do Cordeiro de Deus.

Os símbolos desse sacrifício, assim como as brasas retiradas do antigo altar, são levantados da mesa e colocados em nossos lábios enquanto aguardamos a purificação de nossos pecados.

Os lábios de Isaías foram purificados para que ele pudesse falar em nome de Deus. Nossos lábios recebem os emblemas para que possamos tomar sobre nós o nome de Cristo e falar e agir a Seu serviço.

Ao participarmos do sacramento com arrependimento e fé, renovamos nosso convênio de tomar sobre nós o nome de Cristo, recordá-Lo sempre e guardar Seus mandamentos. A bênção prometida é que possamos “ter sempre consigo o seu Espírito” (Doutrina e Convênios 20:77).

A cada semana, ao participarmos do sacramento, podemos estar atentos à silenciosa pergunta do Senhor:

“A quem enviarei?”

E podemos responder com Isaías:

“Eis-me aqui, envia-me a mim.”

Fonte: Meridian Magazine

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